1934 – Squadra Azzurra em Fúria


 

Poderia ter acontecido na Suécia, mas a Itália acabou levando a segunda Copa do Mundo de Futebol para casa (os suecos desistiram). Aquela festa de quatro atrás que aconteceu no Uruguai tinha tudo para se repetir na Itália e com algumas novidades, mas a festa estava recheada com vários ingredientes políticos da época. Pois é, o ambiente político na Itália estava mais quente que a macarronada da Tia Zulmira e a propaganda fascista era mais intensa que o “rabo-de-galo” preparado pelo Tio Joaquim. Mussolini estava no poder fazia um bom tempo e queria porque queria demonstrar a superioridade daquela “Nova Raça” e uma Copa do Mundo por ali seria uma grande vitrine. E assim foi.

Pode ser que tanto Mussolini como a “Nova Itália” não fossem assim tão fortes como imaginavam, mas isso pouco importava, era o tal de “Vencer ou Morrer” para aquela seleção que só queria jogar o seu futebol retranqueiro de sempre. Coisas da ditadura de plantão. Sendo assim, a Copa do Mundo de 1934 deixava de ser apenas um evento esportivo e se tornava um instrumento de poder. E assim foi.

O mundo já estava conturbado desde antes da primeira guerra mundial, já havia sofrido com a crise de 1929 e o pior, já tinham visto o filme do “King Kong” em 1933 (tô brincando, heim), isso depois de Drácula e Frankenstein em 1931. O fato era que o mundo estava virado ou virando de cabeça “sabe-se-lá-para-onde” e o chefe de plantão italiano gostava de ser paparicado por todos os lados. A segunda edição de uma Copa do Mundo de Futebol corria o risco de acabar por ali mesmo, mas riscos são eventos normais no mundo do futebol (time que não se arrisca, não ganha – dizia o Tio Joaquim).

Dizem as boas línguas que Mussolini era meio claustrofóbico, apesar de ter mantido muita gente presa, e gostava de exibir sua erudição pelos recantos europeus. Falava muitas línguas (boas e más) e dizem que aquele famoso slogam “Deus, Pátria e Família” era uma balela do “Dulce”, pois ele era mais ateu que o Tio Carlos e o Tio Marcos juntos, mas o que importava era a imagem. Fico pensando se hoje a coisa não é parecida? Pode ser que a história se repita com mais frequência que a nossa singela imaginação possa perceber. Pode ser.

Mas vamos falar da Copa de 1934 e deixar as especulações sociais e políticas para depois da Copa de 2026, quem sabe possamos nos tornar mais amáveis e dóceis, mas não dóceis ao estilo do “Dulce”.

A danada da copa de 1934 começou em maio (mais precisamente no dia do aniversário da minha esposa – e olha que eu só nasci em 1963) e terminou em junho (três dias antes do aniversário do meu pai que já contava com seus imponentes 11 anos). Portanto, foram apenas 14 dias de futebol, coisa irrelevante para os dias de hoje que tem jogo dia sim, dia também. Coisas da modernidade futebolística. Mas foram 14 dias intensos, sacanas e até torturantes. Agora, ao invés de 13 equipes, o torneio contava com 16 times badalados e a “Squadra Azzurra” estava em fúria. A copa prometia pegar fogo, até porque a fase de grupos (aquela primeira fase chata) foi eliminada e partiu-se, logo, para os embates de mata (nada de mata-mata, era matou ou morreu). Mas é preciso esclarecer que para chegar a esse “mata” das oitavas era necessário ter se classificado em uma eliminatória ocorrida um pouquinho antes.

Dizem que o Uruguai, que ostentava o título de primeiro campeão do mundo de futebol, ficou muito irritado pela Itália não ter comparecido em Montevidéu (1930) e resolveu boicotar a copa dos italianos. Quem sabe se tivessem ido para a copa, poderiam ter sofrido uma detenção provisória, quem sabe? Dizem que a Inglaterra, a mãe do futebol moderno, também não foi porque a danada da FIFA tinha afastado os ingleses dos embates futebolísticos desde 1928.

A Itália, apesar de ser a dona do evento, não tinha a sua seleção classificada diretamente, teve que disputar uma eliminatória com a Grécia. Venceu de goleada e foi classificada. Outros times tiveram que enfrentar embates eliminatórios, como o Egito que derrotou a Palestina e tornou-se a primeira seleção africana a participar do torneio. É bem curioso ver que a Palestina existia nos anos 1930, apesar de ser uma espécie de protetorado inglês (pelo jeito, os ingleses tentaram entrar na copa, mas não conseguiram).

Outros dois embates eliminatórios definiram as 16 seleções que disputariam a Copa. A Espanha enfiou 11 a 1 em nosso querido e estimado Portugal no placar agregado. Por fim, fizeram uma baita sacanagem com o México, que teve que ir até Roma para disputar com os Estados Unidos uma vaga. Deu Estados Unidos por 4 a 2 e o México teve que voltar para casa. Sacanagem sim, mas dizem as más línguas que os mexicanos haviam se esbaldado (antes do jogo) em festas, casinos, bebedeiras e comilanças e se esqueceram da partida. Seria melhor não ter ido, se é para passar vergonha, melhor ficar em casa.

A copa proporcionou aquele encantador passeio por terras italianas, afinal foram 8 cidades como sede. E cada cidade, heim! Roma, Nápoles, Milão, Florença, Gênova, Turim, Bologna e Trieste. Aliás, eu não conheço nenhuma delas, mas fico imaginando que seria um belo passeio, algo que os mexicanos fizeram.

Tudo definido, era hora de começar o “mata” das oitavas e logo de cara os anfitriões meteram 7 a 1 nos Estados Unidos. Foi a vingança Mexicana aplicada pelos gentis Italianos. Seria melhor o EUA ter ficado em casa, se é para passar vergonha, fique em casa. E os Mexicanos vibraram e estão festejando até hoje.

O Brasil tomou uma paulada da Espanha (3 a 1) e parou por ali mesmo. O resto das partidas foi tudo jogão e deu Áustria, Hungria, Suíça, a finada Tchecoslováquia, Suécia e Alemanha que enfiou 5 a 2 na pobre Bélgica do passado. Definidos os oito classificados, era a hora da verdade verdadeira do futebol, mas o mais cruel, para nós, os sul-americanos, é que nenhum time se classificou (se bem que só Brasil e Argentina estavam lá), foi um vexame para os latinos bons de bola.

A Áustria parecia ser mais forte que os demais, mas a Alemanha vinha crescendo e a Itália jogava em casa, restando apenas a finada Tchecoslováquia como saco de pancadas nas quartas de final. Áustria, Alemanha e Tchecoslováquia venceram e seguiram em frente, mas a Itália teve que jogar de novo com a Espanha (o primeiro jogo terminou empatado em 1 a 1). No segundo “mata” deu Itália (1 a Zero), mas não me pergunte em quais condições.

E a Copa do Mundo de Futebol de 1934 se encaminhava para os momentos decisivos: Itália contra a temida Áustria e os Tchecos contra os Chucrutes Alemães. A finada e surpreendente Tchecoslováquia meteu 3 a 1 na Alemanha e avançou para a final. Os Italianos venceram a potente Áustria por 1 a Zero, mas não me pergunte em quais condições.

A Áustria, decepcionada com a semifinal, acabou sucumbindo frente aos vizinhos Alemães e ficaram em quarto lugar (sem medalha) e no embate final, a Itália ganhou de 2 a 1 dos ilustres Tchecos, na prorrogação, mas não me questione sobre essa partida final, afinal eu nasci na Eslováquia do Norte e não quero comentar nada.

 Dizem que Mussolini compareceu em todos os jogos da copa pressionando mais que um moedor de carne e como desejava o “Dulce”, Itália campeã e um alívio tremendo para os jogadores italianos, que toda hora se lembravam do danado lema: “Vencer ou Morrer”. Estavam vivos e campeões. O melhor jogador só poderia ser um italiano: Giuseppe Meazza e o artilheiro com 5 gols foi um sujeito que tem mais consoante do que vogal no nome: Oldřich Nejedlý da finada Tchecoslováquia.

Mas e a nossa seleção canarinha? Um jogo só? Foi isso mesmo? Pois é, foi a nossa pior copa, ficamos em 14º lugar e voltamos cedinho para casa, assim como nossos irmãos argentinos, os americanos e os mexicanos, mas não me pergunte nada, pois sinto vergonha em responder, seria melhor não ter ido, se é para passar vergonha, melhor ficar em casa.

            Se bem que um brasileiro se deu bem naquela epopeia, um caboclo conhecido por “Filó”, jogando pela seleção italiana e cujo nome era tão pomposo como estranho: Anfilogino Guarisi, estava vivo e feliz.

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