O Uruguai fica lá embaixo, depois do Sul, quase beirando a Antártica e tem muita história. Pioneiros em muitas iniciativas, os uruguaios não poderiam deixar de ser protagonistas no futebol. Dizem que muito antes dos Espanhóis e Portugueses chegarem por lá, os índios Charruás e os Guaranis já disputavam partidas de futebol no incipiente Campeonato da Banda Oriental. Pode não ser verdade, mas como ninguém esteve por lá para relatar, vamos deixar assim mesmo. Mas alguém muito especial esteve por lá em 1930, sim, estou falando sobre o grande, enigmático, profético e hipotético narrador Zé Mistério, que me ajudou a entender cada uma das copas. Vamos contar alguns eventos daquelas Bandas antes da Copa (e até muito antes).

Os tais “brasileños” partiram para cima daquele
território além do Sul e o ocuparam, botando o simpático nome de “Província
Cisplatina”. Mas nossos futuros irmãos reagiram e tomaram o território de
volta. Chega de briga, chega de torcer contra ou favor, chega de insultos e
guerra. E assim foi.
Calma que chegaremos ao futebol e a amada “Celeste
Olímpica”. No começo do século 20, o Uruguai era coisa linda demais, tinha
estabilidade política, tinha direitos conquistados e boas reformas sociais.
Aliás, tinha o singelo título de “Suíça Americana” pelo excelente padrão que
conquistara. Com todas essas benesses, o futebol encontrou ali um terreno
fértil para se desenvolver e virar história.
Antes de chegar em 1930, na Copa propriamente dita,
vamos relembrar um pouco do futebol uruguaio. Todo aquele poderio econômico do
início do século tinha muito a ver com os Ingleses, que eram a grande potência
mundial e eles estavam por lá dando um empurrão (sem conotação futebolística
que mereça ser punida com cartão amarelo). Dizem as más línguas que aqueles
Ingleses que estavam na velha Banda Oriental eram do tipo mais refinado,
gostavam de Rugby e Críquete e o velho Futebol ficava com a medalha de bronze.
Somente a galera do trabalho pesado é que corria por lá chutando a pelota sem
botar as mãos. Pode ser.
No finalzinho do século 19, tinha uma moçada da
elite que estudava na Inglaterra e lá conheceram o nosso futebol, que aliás tem
muito a ver com o Rugby. No Rugby o objetivo é conquistar o território do
adversário e para chegar a essa meta, tromba-se, empurra, chuta e faz o diabo.
O futebol era o irmão caçula do Rugby e adotava o mesmo objetivo. O Brasil
olhava com certa inveja para aqueles uruguaios correndo atrás da bola e, sem
entender muita coisa, desdenhavam:
- Só tonto corre atrás da bola. Se a bola quiser,
ela que venha até os meus pés.
A verdade era que o futebol estava se desenvolvendo
bem mais rápido por lá do que por aqui e essa estrutura proporcionou o
surgimento de uma potência futebolística: “A Celeste Olímpica”. Mas qual a
origem desse significativo apelido?
Como ainda não existia um campeonato mundial de
futebol, a velha e generosa Olimpíada fazia as vezes da Copa e premiava o
campeão com a medalha de ouro, ou seja, a Olimpíada era a Copa do Mundo antes
da Copa do Mundo e o Uruguai, todo organizado corria pelos campos do mundo
estampando sua indefectível camisa celeste, ou melhor, aquele azulzinho básico
que me lembra o Fiat 147 que tive, apelidado de “Azul Calcinha”. Esse timaço
foi para Paris (1924) e levou o Ouro Olímpico, foi para Amsterdã, na Holanda
(1928) e voltou de novo com o Ouro. Pronto, estava decretado a consolidação de
um gigante que passou a ostentar o delicado título de “A Celeste Olímpica”.
A primeira vez que meu filho escutou falar sobre
esse apelido do time uruguaio, ele me perguntou se tinha alguma coisa a ver com
a Celeste do Castelo Rá-Tim-Bum, mas eu rapidamente desfiz qualquer equívoco,
lembrando que a cobra do castelo era rosa e não azul clarinho. Tudo resolvido.
O Uruguai era a maior potência do esporte bretão.
Com toda essa fama, respeito e consideração, a
primeira copa do mundo de futebol somente poderia ser realizada na velha Banda
Oriental (ou na Província Cisplatina para os brasileños) e Montevidéu se tornou
a capital do mundo por 17 dias. Aí você me pergunta:
- Como assim, dezessete dias apenas?
Pois é, a primeira Copa do Mundo de Futebol durou
apenas 17 dias, mas foi um evento histórico que transformou o futebol num
grande espetáculo mundial, pois, naquele torneio tinham seleções representando
três continentes (considerando que a América do Norte é um continente). Até um
tempo atrás, eu acreditava que a América era uma coisa só, mas parece que não.
Já naquela época, alguns países estavam aborrecidos
com a FIFA e resolveram não prestigiar o significativo evento. Foi o caso da
Inglaterra, considerada a mãe generosa do futebol, que bateu o pé e não foi
para o Uruguai. Dizem que outros europeus seguiram, como sempre, a velha e
rancorosa mãe e não foram.
Então, a coisa estava mais para os sul-americanos,
que contavam com 7 (sete) equipes: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai,
Peru e Uruguai. Da América do Norte vieram os EUA e o México e da Europa,
Bélgica, França, Iugoslávia (que não existe mais) e a Romênia. Tudo definido,
começava a história da Copa. Contava com 4 (quatro) grupos na primeira fase,
sendo que apenas o grupo da Argentina tinha 4 seleções (portanto, 3 jogos para
cada time naquela fase). Os demais grupos tinham 3 participantes e fariam
apenas dois jogos.
Na primeira e curta fase do torneio, a Argentina se
mostrou imbatível, ganhou da França, do México e do Chile. O Uruguai foi bem,
mas teve apenas dois jogos e ganhou os dois. E o Brasil? Perdeu da Iugoslávia
(por 2 a 1) e goleou a Bolívia (4 a Zero), mas não passou para fase seguinte.
A fase seguinte já foi a semifinal e reuniu os mais
bem colocados na primeira fase: Argentina, Iugoslávia, Uruguai e Estados
Unidos. Foi só goleada, 6 a 1 para Uruguai contra Iugoslávia e o mesmo placar a
favor da Argentina contra os EUA. Festa de gols no Centenário. Aliás, o icônico
estádio de Montevidéu havia sido construído especialmente para a copa e diziam
que caberiam 100 mil pessoas agarradinhas, mas na final estavam presentes,
aproximadamente 93.614 torcedores (não sejamos tão rígidos com os números).
O jogo final reuniu Uruguai o dono da casa e seu
vizinho mais belicoso, a Argentina. Jogo duro que não refletiu o placar, mas ao
final lá estava a “Celeste Olímpica” comemorando, foi 4 a um para nós (não que
eu seja contra nossos irmãos argentinos). Ver a Argentina vice é melhor que
vê-la campeã, mas nossos irmãos contaram com o artilheiro da primeira copa, Guillermo
Stábile que marcou 8 gols. O Uruguai, campeão tinha um time fabuloso com seu
capitão Jose Nasazzi, com Hector Scarone (chamado de “O Gardel do Futebol) e
com seu xará Hector Castro, conhecido como “El Manco Divino”, pois jogava bola,
mesmo depois de perder uma parte do braço, num acidente na infância.
Mas e o Brasil, heim? Jogou apenas dois joguinhos
mixurucas e voltou para a pátria mãe gentil? Pois é, dizem as más línguas que o
Brasil parecia ser apenas o Rio de Janeiro. Pode ser que o fato da capital ser
a cidade maravilhosa e concentrar todo o movimento, tenha contribuído para
chamar apenas jogadores de lá. O que não foi maravilhoso, foi o fato da
Confederação Brasileira (com sede no RJ) não convidar os Paulistas para a
seleção. Dizem que o grande craque Araken Patuska, somente foi para copa porque
brigou com o Santos (seu time), mas ficaram de fora grandes expoentes da época
como Arthur Friedenreich (O Pelé da época, conhecido como “El Tigre” e
são-paulino de carteirinha), Feitiço (que o apelido já diz tudo) e ainda, o
grande zagueiro Del Debbio. Brigas levaram o Brasil a estrear de forma tímida
na primeira Copa do Mundo de Futebol.
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