Ansiosas Renas de Noel

 


Aquele ano, especialmente, foi muito desgastante para o bom velhinho. Logo no início do ano os ajudantes da limpeza cruzaram os braços e reivindicaram diversas pautas relacionadas com as condições de trabalho.

Sempre depois das festas de final de ano, a sujeira toma proporções maiores que outras datas, talvez somente o carnaval seja parâmetro. No ano anterior a sujeira parece que havia aumentado de forma exponencial e o bom velhinho não se lembrava do que havia prometido para a galera do trabalho pesado. A greve veio logo no momento mais necessário à limpeza.

Negocia daqui, cede dali e aperta acolá. Chegou a um acordo razoável e a limpeza ficou garantida. Mas o ano estava apenas começando.

Um pouco antes do carnaval ocorreu um surto de gripe que não poupou nem mesmo o bom velhinho. Foi um carnaval desanimado, gelado e até sonolento. Nos meses seguintes a coisa parecia ter se estabilizado, com apenas algumas contrariedades e decepções. Aumento do aluguel do galpão e da fábrica, música em alto volume depois das 22:00 horas, alguns resfriados e bichos de pé. Nada fora do normal.

Em agosto explodiu a manifestação dos operários da fábrica e dos técnicos de logística. Queriam 200% de aumento ou não haveria natal naquele ano. O bom velho estava cansado. Depois de muitos anos na labuta a sua data mais relevante estaria comprometida. Mesmo cansado foi negociar.

Negocia daqui, cede dali e aperta acolá. Chegou a um acordo razoável e a produção ficou garantida. Mas a logística havia endurecido. O bom velhinho faz tempo queria investir em inteligência artificial para dinamizar o processo logístico, mas sem grana não tinha como. Iria demitir mais da metade daqueles técnicos comunistas que tanto o pressionavam. Ou usava a pouca grana para produzir um Natal feliz ou investia em tecnologia. Esse impasse não tinha solução.

Enfrentou muitos outros problemas como o divórcio, a invasão dos mosquitos e ainda o drama do aquecimento global. Mas foi resiliente e confiante. Seria um grande natal. Mas de todos os problemas enfrentados, o que mais lhe afligia era o comportamento de suas estimadas renas. Ano após ano elas pareciam mais e mais ansiosas. Ainda em abril elas já ficavam naquele estado de expectativa e com isso o tempo parecia acelerar para todos, naquele remoto território do polo norte.

Realmente isso era o que mais incomodava o bom e cansado velhinho. A ansiedade tomava conta de todos e imprimia velocidade ao calendário. Em julho, as renas mais eufóricas promoveram uma manifestação pedindo para que o Natal fosse antecipado. Argumentavam que Jesus havia nascido em agosto e não em dezembro. Pura ansiedade. Que ano aquele!

Antecipar o Natal para agosto seria o mesmo que inviabilizá-lo, pois, não haveria tempo para a produção dos brinquedos, sem contar com a logística. Papai Noel não tinha a quem pedir um presente, caso tivesse, pediria a plena cura das renas ansiosas. Que ano aquele!

O bom velhinho lembrou-se da juventude quando entrou no curso de engenharia. Sua mãe queria que ele fosse psicólogo, mas o danado queria mexer com grandes engenhos. Pode ser que o maior engenho esteja na mente do ser humano e que o psicólogo seja o engenheiro das emoções, sentimentos e pensamentos. Pode ser que não.

Pensou que talvez sua mãe tivesse razão e diante aquele incômodo, poderia ajudar suas amadas renas. Mas o fato era que não poderia antecipar o Natal. Ameaçou prorrogar a data para fevereiro, um pouco antes do carnaval, somente para deixar as renas apavoradas. Sabia que dezembro era sagrado.

Quanto mais os dias avançavam no calendário, mais as renas abordavam o bom e impaciente velhinho para que o Natal acontecesse logo. O melhor presente naquele momento seria a paciência, mas esse é um presente que não se ganha, se conquista a duras penas. Que ano!

Ele já havia notado esse comportamento no decorrer dos anos. Parecia que agora a proporção estava insustentável, contaminando a todos naquele território. O bom e estrategista velhinho bolou um plano para trazer o equilíbrio de volta em seu território. Mas o território das renas havia sido invadido pelo atropelo dos eventos concorrentes da vida. Ansiedade é um mal que acomete a todos, indistintamente, em maior ou menor grau. Talvez não seja um mal propriamente dito, mas que se espalha em todos os territórios adjacentes. Alguns dizem que é uma doença, outros que é uma preocupação exagerada com aquilo que sequer pode ocorrer e tem outros que dizem que é igual cólica intestinal sem nenhum banheiro próximo. Que coisa!

Não tenho condições, conhecimento e nem propriedades intelectuais para definir o que seja a tal de ansiedade. Sinto, mas não sei o que é. No caso daquelas amadas renas, parece que o único momento importante e feliz era o Natal. Todos nós desejamos a felicidade e todos estamos ansiosos para conquistá-la. Assim sendo, a ansiedade pode ser apenas um instrumento para atingir a tal felicidade desejada. Mas Papai Noel queria trazer o equilíbrio naquele território e apresentou o seu plano:

- Reuni todos aqui para comemorar o Natal.

- Como assim? Faltam seis meses para o Natal. Comentou o assessor de marketing.

- Teremos natais mensais a partir do segundo semestre do ano, mas sem distribuição de presentes, somente confraternização em nosso território.

Todos ficaram confusos, alguns também ficaram desapontados e outros parecem ter concordado com uma coisa:

- Papai Noel endoidou de vez.

A ideia de confraternizar com sua equipe visava reestabelecer a harmonia e o equilíbrio e dessa forma, iria resolver seu maior incômodo: a ansiedade das renas que aceleravam o calendário. E se o Papai Noel mandou, obedece quem tem juízo. Seis natais por ano.

Certamente as renas sentiram um alívio em seus sentimentos. Coisa passageira, pois logo na sequência começaram a dimensionar o verdadeiro significado dos novos natais. Ficariam mais ansiosas ainda à espera do próximo natal mensal e consequentemente acelerariam o calendário de forma meteórica. Seria como se existisse apenas o presente (não o presente do Papai Noel e sim aquele momento inexplicável do tempo).

Resolveram fazer uma reunião somente com a participação das renas para deliberarem. A pauta, apesar de difusa, era relativamente consistente. Precisavam, de alguma forma, encontrar o equilíbrio, senão iriam enlouquecer o bom e sistemático velhinho. Chegaram a um consenso depois de manifestarem todas as suas reais e imaginárias dúvidas em relação ao futuro:

- Vamos aceitar a proposta de um Natal mensal, mas vamos reivindicar um benefício que proteja nossa saúde.

- Sim, mas e se o Papai Noel não aceitar? Disse uma das renas menos ansiosas daquele território.

- Ele vai aceitar, senão...

Já na presença do bom e controlador velhinho, a decana das renas pronunciou:

- Aceitamos os natais mensais, mas com a seguinte condição: que a terra seja plana.

O bom e esférico velhinho lembrou-se que as renas integravam o departamento de logística e entendeu que aquela reivindicação tinha partido daqueles técnicos comunistas que tanto o pressionavam e pediu um tempo para pensar no assunto. Antes, porém, argumentou:

- Com a terra plana, vocês terão que ir e voltar pelo mesmo caminho. A vantagem da terra redonda é continuar e sair do outro lado. E isso é uma vantagem competitiva.

Mas as renas corporativistas eram inflexíveis e sem a terra plana, nada feito. Então o bom e flexível velhinho sentiu seu território interior estremecer e entendeu que precisava mudar de profissão. Lamentou não ter feito psicologia.

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